ABCIC EM AÇÃO
Na sequência, Ligia abordou temas relacionados à elaboração de projetos com pré-fabricados de concreto, citando a ABNT NBR 9062 — Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado, que estabelece os critérios de projeto. Iniciou sua apresentação com uma análise da evolução desses critérios, que, atualmente, passam a considerar aspectos de sustentabilidade, como o Model Code 2020 da fib, que já conta com um capítulo específico dedicado ao tema.
Ligia apresentou um estudo do engenheiro japonês Akio Kasuga sobre a avaliação do ciclo de vida das edificações, indicando que, no Japão, cerca de 40% das emissões estão relacionadas à produção, enquanto 60% estão associadas ao uso e à manutenção. “Nesse contexto, o projeto tem potencial para reduzir as emissões associadas ao uso”, acrescentou. A pré-fabricação de concreto aumenta a durabilidade e reduz a necessidade de reparos, contribuindo para reduzir custos e impactos ambientais, além de atender às exigências crescentes de certificações e de financiamentos sustentáveis.
Entre os principais pontos de atenção está a estabilidade global da estrutura, que deve ser cuidadosamente avaliada ainda na fase de projeto. Diferentemente das estruturas moldadas in loco, os sistemas pré-fabricados apresentam comportamentos distintos, o que exige soluções específicas de travamento. “Em edificações de menor porte, como prédios de até três pavimentos, é fundamental prever mecanismos adequados de estabilização, uma vez que o simples uso de vigas biapoiadas não garante a segurança estrutural”, explicou Ligia.
Outro aspecto crítico envolve as situações transitórias, que abrangem etapas como desforma, transporte, içamento e montagem das peças. Nesses momentos, a estrutura ainda não está na sua configuração final. Por isso, é indispensável considerar a idade real do concreto no momento da desforma, bem como garantir a resistência adequada em cada fase, assegurando a integridade dos elementos até a conclusão da obra.
A tolerância dimensional também desempenha um papel fundamental tanto na produção quanto na montagem dos elementos pré-fabricados. “Tecnologias como o laser scanner têm sido cada vez mais utilizadas para verificar e validar essas tolerâncias, contribuindo para maior precisão e qualidade na execução”, comentou Ligia, que também destacou a importância das ligações, responsáveis pela transferência de esforços e pela garantia da rigidez e da estabilidade globais da estrutura. “Como muitas dessas conexões são executadas em campo, é essencial que sejam projetadas de forma eficiente, pois impactam diretamente o comportamento estrutural final.”
A integração de tecnologias digitais, como o BIM (Building Information Modeling), tem ampliado a eficiência em todas as etapas do processo. “Com bibliotecas de elementos previamente catalogados, é possível otimizar o desenvolvimento de projetos, melhorar a compatibilização entre disciplinas e integrar informações de produção e de montagem em modelos tridimensionais”, finalizou.
As questões relacionadas à produção e à montagem das estruturas pré-fabricadas de concreto foram apresentadas pela engenheira Íria, que reiterou que todos os processos e o desempenho das estruturas estão atrelados a três aspectos principais: ligações, situações transitórias e estabilidade global. “Esses três fatores interferem na qualidade e diferenciam o sistema construtivo do convencional”, explicou.
Os participantes puderam conhecer as fases e o mapeamento dos processos de produção, bem como a importância da qualidade, representada pelo Diagrama de Ishikawa, baseado em seis categorias: máquina, materiais, mão de obra, meio ambiente, método e medidas. “A qualidade está ligada à análise de processos. Por isso, quando há um problema, não é adequado buscar culpados, mas sim compreender as causas”, comentou Íria, destacando que a qualidade vai além de uma atividade específica, pois permeia todas as fases da empresa, alinhando as operações aos objetivos estratégicos e garantindo valor contínuo aos clientes.