CENÁRIO ECONÔMICO
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O maior desafio na próxima década talvez não seja a tributação ou os juros, que hoje estão no centro das preocupações das empresas brasileiras, mas a disponibilidade de pessoas para trabalhar.
Dois eventos recentes abordaram um tema que ganha cada vez mais relevância nos debates econômicos e setoriais: a queda da fecundidade e o envelhecimento da população, que deixou de ser uma tendência restrita aos países desenvolvidos para se tornar um fenômeno global. A coincidência mostra a importância da questão no Brasil: em pouco mais de seis décadas, o Brasil atravessou uma das mais rápidas transições demográficas da história, com a taxa de fecundidade saindo de 6,3 para cerca de 1,55 filhos por mulher, ou seja, abaixo do nível de reposição populacional. Dessa forma, o país deverá atingir seu pico populacional por volta de 2041 e sua população ocupada deverá começar a diminuir já na segunda metade da década de 2030.
Com abordagens distintas, o ponto em comum entre as duas palestras foi as implicações econômicas, sociais e fiscais do problema.
No Construsummit 2026 realizado em Florianópolis, José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e um especialista reconhecido em projeções populacionais, destacou o impacto das mudanças demográficas nas cidades. A redução da taxa de natalidade, do tamanho das famílias e o envelhecimento já começam a moldar o perfil da demanda e dos lançamentos do mercado. E muito além das características dos imóveis, a demografia irá cada vez mais atuar sobre a própria organização da vida urbana e sobre a demanda por serviços.
Por sua vez, na reunião mensal de conjuntura promovida pelo FGV IBRE, Daniel Duque, economista e pesquisador em mercado de trabalho, enfatizou que essas transformações alteram profundamente a composição da força de trabalho e impõem novos desafios ao crescimento econômico e à sustentabilidade das políticas públicas. O envelhecimento populacional ampliará significativamente as pressões sobre os sistemas previdenciário e de saúde, exigindo uma profunda reorganização das contas públicas.
A mensagem principal dos dois eventos é que o país dispõe de uma janela de oportunidade relativamente curta para implementar reformas capazes de elevar a produtividade, adaptar o mercado de trabalho e reorganizar seu sistema de proteção social diante das profundas mudanças demográficas já em curso.
Para as empresas, a questão central que mais importa é como se adaptar. E para setores que hoje são fortemente dependentes de mão de obra, o cenário torna-se muito mais desafiador.
O setor da construção, principal elo da cadeia produtiva, caracteriza-se pela elevada heterogeneidade de produtos e processos produtivos. Historicamente, o setor apresenta baixos níveis de produtividade em comparação a outras atividades econômicas, como a indústria de transformação. E o setor já vive um quadro de escassez de mão de obra; as projeções demográficas mostram que não apenas não haverá alívio, como também que tende a agravar-se.
É importante destacar que a transição demográfica não é apenas um problema. Ela também cria oportunidades, como novos mercados voltados à população idosa, novos serviços urbanos e mais estímulos à inovação e à industrialização do setor.
É preciso ter em mente que está em curso uma transformação estrutural da economia brasileira. Empresas que compreenderem antecipadamente essa mudança estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente de menor oferta de mão de obra, maior competição por talentos e crescente pressão pela eficiência.