PROJETANDO COM O PRÉ-FABRICADO

Ao longo de 25 anos na engenharia de estruturas, testemunhei o pré-fabricado de concreto evoluir de uma alternativa para uma necessidade estratégica na industrialização da construção civil no Brasil. Hoje, representa uma filosofia de trabalho que prioriza eficiência, qualidade e velocidade.
O maior desafio ainda é cultural: convencer o contratante de que o custo inicial do pré-fabricado é um investimento com altíssimo retorno, principalmente pela drástica redução do tempo de obra, que diminui os custos indiretos e acelera a rentabilidade. É uma equação que sempre pende a favor da inteligência construtiva.
Em minha carreira, o pré-fabricado foi, por vezes, a única solução. Na reforma do Maracanã, a demolição inesperada da cobertura tornou o cronograma para a Copa das Confederações crítico; os degraus pré-moldados garantiram a entrega. No projeto "Fábrica de Escolas do Amanhã", no Rio, a velocidade da construção seriada foi crucial para entregar centenas de unidades no prazo. A mesma lógica de "tirar a obra da obra" se aplica às pontes que executamos pelo método ABC (Accelerated Bridge Construction), minimizando o impacto no tráfego.
O tema central desta edição, a segurança, é indissociável da qualidade do projeto. Ao projetar com pré-fabricados, um dos pontos mais críticos é a análise da construção em etapas (staged construction). A forma como as cargas atuam em cada fase de montagem é um dos maiores riscos da construção pré-moldada e, se não for corretamente avaliada, pode comprometer todo o sistema.
É com otimismo que vejo a iminente obrigatoriedade da Avaliação Técnica de Projeto (ATP) no Brasil, medida que praticamente eliminará esse risco, elevando o patamar de segurança do setor.
Olhando para o futuro, a massificação do pré-fabricado é um caminho sem volta. A vanguarda mundial já aponta para o uso intensivo de UHPC para criar peças mais esbeltas e vencer vãos maiores, além de melhores desempenhos nas conexões, o que faz mais com menos material.
Para nós, projetistas, o horizonte se expande com a ampliação do projeto BIM e dos gêmeos digitais (digital twins). A integração de sensores inteligentes aos elementos, comunicando-se em tempo real com seus gêmeos digitais, permitirá um monitoramento preditivo da saúde estrutural, simulando desde o desgaste por fadiga até o comportamento em eventos excepcionais, otimizando a manutenção e garantindo a segurança ao longo de uma vida útil que pode ultrapassar 100 anos. Projetar com pré-fabricado é projetar com inteligência, agilidade e compromisso com a segurança.
João Casagrande, Engenheiro,
PhD, fundador da Casagrande Engenharia & Consultoria e diretor de Infraestrutura da ABECE