Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 38 - setembro de 2026

ACONTECE NO MUNDO

Engenharia do concreto acelera transformação rumo a 2050 com IA, industrialização e descarbonização

Engenheira Íria Doniak, presidente da fib e presidente executiva da Abcic, analisa os principais avanços apresentados no 7th fib Congress, em Lisboa (Portugal), e afirma que o futuro da construção passa pelo equilíbrio entre sustentabilidade, resiliência, digitalização e novos materiais. Ela também foi keynote speaker no Italian Concrete Conference (ICC 2026), realizada na cidade de Bergamo (Itália)

"Hoje, não basta pensar apenas na construção. É preciso considerar desde a concepção do projeto até a reutilização, a reciclagem ou a demolição da estrutura, incluindo manutenção, monitoramento, circularidade e adaptação das estruturas existentes”, afirma Íria, que participou de um importante encontro com o presidente da American Concrete Institute (ACI), Scott Anderson, em uma mesa-redonda "O cenário global: presente e futuro", coordenada por Franco Angotti, presidente da AICAP e Enrico Nusiner, presidente do CTE.

Industrialização ganha protagonismo na agenda da sustentabilidade

Entre todas as tendências apresentadas durante o fib Congress, a industrialização da construção foi apontada como uma das estratégias mais eficazes para reduzir os impactos ambientais sem comprometer o desempenho estrutural.

De acordo com Íria, produzir estruturas mais eficientes, utilizando menor quantidade de material, representa um dos maiores avanços da engenharia contemporânea. "Industrializar significa utilizar menos concreto, menos aço e menos recursos naturais para entregar estruturas com desempenho superior. Essa é uma das principais contribuições para a descarbonização."

Ela observa, porém, que essa mudança ainda enfrenta barreiras culturais, especialmente no mercado brasileiro. "No Brasil, ainda existe uma cultura muito voltada ao menor preço imediato. Precisamos migrar para uma visão baseada no custo-benefício ao longo de toda a vida útil da estrutura”, avalia Íria, que considera que o país vem avançando de forma consistente nesta área.

“A pauta da escassez de mão de obra, de caráter global, tornou a industrialização uma estratégia relevante, associada a todos os outros benefícios. Além disso, o Brasil possui uma engenharia extremamente sólida. Somos o único país da América Latina com normalização própria para estruturas pré-fabricadas e estamos avançando em novos documentos técnicos, como a futura norma brasileira para projeto com UHPC”, explica Íria. 

Ela destaca ainda que pesquisas envolvendo geopolímeros, concretos de ultra-alto desempenho (UHPC), reforços não metálicos e novos compósitos colocam o Brasil em sintonia com as principais linhas de pesquisa internacionais.

Na sessão especial, no Congresso em Lisboa, dedicada à pré-fabricação em concreto, coordenada pela Comissão 6 de Pré-fabricados, uma das ênfases esteve relacionada à implementação das declarações ambientais de produto.

Inteligência Artificial amplia capacidades da engenharia

Embora a Inteligência Artificial tenha ocupado destaque nas apresentações do congresso, Íria ressalta que seu papel é ampliar a capacidade de análise dos profissionais — e não substituir a experiência da engenharia. "O bom projeto começa antes do computador. Nenhuma tecnologia substitui o conhecimento do projetista nem o chamado 'Conceptual Design’, previsto inclusive no fib Model Code”, diz. 

Na prática, a IA está transformando todas as etapas do ciclo de vida das estruturas de concreto, desde o projeto até a operação e manutenção. No desenvolvimento de projetos, algoritmos conseguem avaliar múltiplas alternativas estruturais, otimizar o consumo de materiais, reduzir incompatibilidades entre disciplinas e apoiar a tomada de decisão. Durante a execução das obras, sensores, drones e sistemas digitais permitem acompanhar o desempenho da construção em tempo real, reduzindo desperdícios, retrabalhos e aumentando a segurança operacional.

Já na fase de operação das edificações e das obras de infraestrutura, a integração entre Inteligência Artificial, sensores e gêmeos digitais inaugura um novo paradigma na gestão de ativos. "Passamos de uma manutenção corretiva para uma manutenção preditiva. O monitoramento contínuo permite identificar precocemente sinais de deterioração, prever falhas e planejar intervenções com maior eficiência”, comenta Íria, que acrescenta que essa mudança representa ganhos significativos em confiabilidade, redução de custos operacionais e aumento da vida útil das estruturas.

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