ACONTECE NO MUNDO
Engenheira Íria Doniak, presidente da fib e presidente executiva da Abcic, analisa os principais avanços apresentados no 7th fib Congress, em Lisboa (Portugal), e afirma que o futuro da construção passa pelo equilíbrio entre sustentabilidade, resiliência, digitalização e novos materiais. Ela também foi keynote speaker no Italian Concrete Conference (ICC 2026), realizada na cidade de Bergamo (Itália)
Outro consenso do Congresso foi a consolidação do BIM, dos gêmeos digitais e de outras ferramentas digitais como elementos essenciais para a construção sustentável. Ao integrar projeto, execução, operação e manutenção em um único ambiente digital, essas tecnologias reduzem erros de compatibilização, otimizam recursos e permitem decisões baseadas em dados ao longo de todo o ciclo de vida das estruturas.
"Essas tecnologias não garantem, sozinhas, a neutralidade de carbono, mas aceleram esse processo quando associadas a materiais de menor impacto ambiental, processos industrializados e estratégias de economia circular”, comenta Íria. Embora a disponibilidade de dados e a capacitação profissional ainda sejam desafios, a expectativa é de uma rápida expansão dessas ferramentas em todo o setor.
As discussões do fib Congress também evidenciaram que o envelhecimento da infraestrutura mundial está impulsionando novos investimentos no monitoramento estrutural. Pontes, barragens, edifícios e grandes obras passam a incorporar sensores inteligentes, visão computacional, drones e plataformas digitais capazes de monitorar continuamente seu comportamento estrutural.
Segundo Íria, essa integração entre tecnologias representa uma mudança profunda na engenharia. "Hoje é possível monitorar continuamente o desempenho das estruturas, detectar anomalias em seus estágios iniciais e planejar intervenções antes que ocorram falhas”, explica Íria, que ressalta, entretanto, que a tecnologia, sem conhecimento técnico, não resolve os desafios da engenharia.
Visitas técnicas a obras emblemáticas
As visitas técnicas realizadas durante o congresso permitiram observar, na prática, muitas das tecnologias discutidas nas palestras. Entre elas, o Phoenix Building combina grandes vãos estruturais superiores a 45 metros, uso intensivo de protensão e fachadas leves pré-fabricadas em UHPC integradas à estrutura principal, bem como outros elementos pré-fabricados em conjunto com a parte convencional, mas com alto índice de racionalização.
Já a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa — uma das maiores da Europa, inaugurada em 1998, com aproximadamente 17,2 quilômetros de extensão — permanece como referência mundial em engenharia estrutural. Trata-se de uma solução atirantada combinada com outros sistemas em distintos trechos, construída sobre o estuário do rio Tejo. A obra enfrentou condições extremamente desafiadoras, como solos de baixa capacidade resistente, ambiente marinho agressivo e elevada exigência de desempenho frente a ventos, marés e ações sísmicas.
"Para superar essas condições, foram adotados fundações profundas, concreto de alto desempenho, elementos pré-fabricados e métodos construtivos que reduziram o impacto ambiental e aumentaram a eficiência da execução. A ponte também conta com sistemas de monitoramento estrutural para acompanhar seu desempenho ao longo de sua vida útil. A obra tornou-se uma referência em engenharia ao aliar soluções inovadoras, durabilidade, segurança e sustentabilidade, demonstrando como tecnologias construtivas e de monitoramento podem garantir a eficiência e a longevidade de grandes estruturas”, destaca Íria.
Outro momento marcante foi a visita ao museu dedicado ao engenheiro português Edgar Cardoso, responsável por mais de 500 pontes, no Instituto Superior Técnico. "Conhecer a história também faz parte da inovação. Pensar em engenharia não é apenas cálculos ou novas tecnologias; é entender o que fizeram os antecessores. Não conhecer os princípios da inovação implica, muitas vezes, em decisões equivocadas”, ressalta a presidente executiva da Abcic.
Na Itália, antes do evento, a engenheira passou dois dias na Universidade Politécnica de Milão, com o Professor Marco di Prisco, onde teve a oportunidade de conhecer o laboratório Pier Luigi Nervi, os laboratórios dedicados a novos materiais e tecnologias, em especial CRF e UHPC, objeto das pesquisas ali conduzidas, e uma sessão especial com a apresentação dos trabalhos de PhD em curso com os pesquisadores.